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terça-feira, 15 de junho de 2010

Apenas 1% das creches são boas

Por Sarah Fernandes, do Portal Aprendiz



Apenas 1,1% das creches e 3,6% das pré-escolas são consideradas boas. O diagnóstico é de um estudo do Ministério da Educação (MEC), da Fundação Carlos Chagas (FCC) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), divulgado na última segunda-feira (14/6). Ele foi baseado em questionários respondidos por professores, diretores e coordenadores pedagógicos de 147 creches e pré-escolas de Belém (PA), Campo Grande (MT), Florianópolis (SC), Fortaleza (CE), Rio de Janeiro (RJ) e Teresina (PI).

Ao todo, 49,5% das creches analisadas foram consideradas inadequadas, segundo a pesquisa. Entre as pré-escolas o índice é de 30,4%.

A aplicação de atividades educativas recebeu nota 2,3 nas pré-escolas e 2,2 nas creches, em uma escala de zero a dez. “Mesmo as professoras que são formadas aprendem muito pouco sobre o trabalho especifico com crianças pequenas”, avaliou a coordenadora do estudo Maria Malta. “Uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas mostrou que menos de 5% do conteúdo da graduação se volta para a educação infantil”.

Nas creches, o uso de livros recebeu nota 1,5. Incentivo a brincadeiras de faz de conta teve média 2,9, atividades com música, 1,7, uso de blocos educativos, 1,8, atividades de aceitação da diversidade, 1,5 e ensino sobre natureza e ciência, 1,2. Nas pré-escolas o uso de livros teve nota 2,6 e o uso de equipamento e jogos para atividades motoras ficou com 1,1.

“Avaliamos a presença de materiais em sala de aula e se o acesso era fácil para as crianças. A pontuação 1 indica que não foi encontrado nada a respeito”, contou uma das pesquisadoras do estudo, Eliana Bhering, que apresentou os resultados.

O quesito “estrutura do programa”, que observou as atividades diárias das crianças, incluindo rotinas de cuidado pessoal, teve nota 3,2 nas creches e 2,5 nas pré-escolas. “As secretarias de educação devem mandar materiais e pagar tempo de planejamento de atividades para professores. O problema é que as equipes são muito pequenas para o tamanho da rede que devem atender”, comentou a coordenadora do estudo, Maria Malta.

O espaço mobiliário recebeu nota 3,6 nas creches e 3,2 nas pré-escolas. Infraestrutura para o sono teve notas 1,8 e 2,6, respectivamente.

A pesquisa foi realizada em escolas municipais, conveniadas e particulares das seis capitais brasileiras, no segundo semestre de 2010. Ela não considerou áreas rurais e regiões pobres do interior dos estados.

“Ainda assim, todas as pessoas entrevistadas disseram que nos últimos anos a situação melhorou muito. Estamos melhor hoje do que estávamos ontem”, comentou Maria Mota.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mais sobre a reportagem da Veja que tenta desconstruir o Construtivismo...



Achei este artigo muito interessante, e como quero reafirmar sobre a postura absurda e antijornalística da Veja, já que esta não foi isenta sobre o assunto, coloco aqui mais um texto sobre ele. Quem escreveu foi Adriana Araújo Machado Mendes da Silva, pedagoga e psicopedagoga clínica e institucional, para o Portal Aprendiz. Espero que ela não ache ruim ter colocado aqui...

Construvismo: ausência de parâmetros!?

Ao ler a VEJA nº 2164, de 12/05/2010, setor Educação, deparei-me com o artigo “Salto no Escuro”, afirmando que “Seis de cada dez crianças brasileiras estudam segundo os dogmas do construtivismo, um sistema adotado por países com os piores indicadores de ensino do mundo”. Antes de terminar a leitura, minha cabeça já era um turbilhão de ideias, afinal de contas eu, com os meus vinte e poucos anos de idade, Pedagoga e Psicopedagoga, passei, como aluna, por escolas que seguiam uma linha tradicional, com conteúdos que eram depositados e vomitados sobre mim e eu, simplesmente, era obrigada a assimilá-los. Nelas fui rotulada, desprivilegiada, menosprezada, desrespeitada, deformada... Enfim, era considerada, sempre, a última da classe.

Acostumaram os estudantes a estudar para fazer uma prova. Para passar de ano. Mas dessa forma, eu não conseguia. Recuperação na certa, ano após ano. Nessas escolas, o errar era considerado castigo grave. Passei por terapeutas, psicólogos, psicopedagogos até encontrar uma escola que privilegiasse o pensar. O Aprender a Aprender. Uma escola que seguia princípios construtivistas, segundo os quais o conhecimento não é dado como algo terminado. Ele se constituía pela interação do indivíduo com o meio físico e social, com o mundo das relações sociais; e por força da ação do indivíduo e não por qualquer dotação prévia. Aulas que transcendiam as paredes da sala de aula; trabalhos com grupos operativos, viagens pedagógicas, conhecimentos construídos.

Continuei a leitura do artigo da Veja até me deparar com outra afirmação: "O construtivismo pode se tornar sinônimo de ausência de parâmetros para a educação, deixando o professor sem norte e o aluno à mercê de suas próprias conjecturas”. Travei, minhas mãos gelaram, engoli seco. Retomei a afirmação. Reli. O construtivismo pode, mas não é sinônimo de ausência de parâmetros, visto que as práticas pedagógicas construtivistas, conforme ressaltam Isabel Solé e César Coll em “O construtivismo na sala de aula”, são norteadas por um conjunto articulado de princípios e diretrizes fundamentadas nas teorias psicológicas do desenvolvimento e da aprendizagem que defendem que o aluno exerce o papel principal no processo de ensino-aprendizagem e é o construtor ativo do seu próprio conhecimento. Isso implica que o professor não seja mais reconhecido como transmissor de conhecimentos, mas como aquele que estimula a autonomia do aluno e cria as oportunidades de descoberta. Esta teoria não diz, em nenhum momento, que os alunos fiquem soltos, sem parâmetros.

Automaticamente volto ao tempo e me recordo da época em que estudei e conclui meu ensino médio nessa escola que segue princípios construtivistas, na qual a minha professora de Língua Portuguesa,em suas aulas, ia além da gramática, da ortografia; trazia para nossa sala de aula textos, histórias de Rubem Alves e eu viajava nas entrelinhas das suas palavras e imaginava: “Quando crescer vou ser igual a ela!, não vou dar o peixe pronto aos meus alunos, vou ensiná-los a pescar”. Se as cadeiras estivessem em filas, fazia uma grande roda e abria uma discussão levando em consideração o ponto de vista de todos. Tive, ainda, um professor de História que, se possível fosse, vestia-se de Lampião para nos aproximar do conteúdo que estava sendo trabalhado. E ainda um professor de Educação Artística (Artes) que pedia que colocássemos nossas cadeiras do lado de fora da sala para vermos as coisas sobre outras perspectivas. Eles não cumpriram apenas seus simples papéis de professar uma arte ou uma ciência para que seus alunos passassem no vestibular ou numa outra prova qualquer. Mais do que isso fizeram, educaram e me ensinaram para a vida. E se hoje sou uma educadora que faz a diferença nas salas de aula por onde passo, é porque existem escolas, como a em que estudei e a em que trabalho, que acreditam nos princípios construtivistas. Escolas que, mais do que educar, desenvolvem a capacidade de pensar, resolver problemas, argumentar. Imaginem estudar física num parque de diversões, aprender matemática com poesias, estudar artes educando o olhar e a escuta sensível!... Pois é. Na minha escola jogava-se pião (quantas voltas ele faz por segundo e com que velocidade? Que forças o mantêm em equilíbrio?), xadrez, e até tínhamos um gudódromo (campo para jogar gudes); Lá aprendíamos lições fundamentadas em concepções construtivistas. (...) Nesse espaço de gente, o Ensinar e o Aprender, são atividades complexas e delicadas que acontecem, fazendo acontecer a Vida. Espaço onde se compreende que Ensinar exige domínio seguro de conteúdos, conhecimento do sujeito aprendiz, competência técnica, postura política, atitudes de escuta, acolhimento: onde o Aprender significa conviver com a dúvida e com a busca, lidar com o inesperado; onde Ensinar e Aprender implicam engajamento num processo dinâmico, criativo, transformador(...) - fragmento extraído do PPP do Colégio Gênesis.

Talvez a falta de parâmetros à qual alguns se referem seja o leque de possibilidades das diversas formas de aprender. Aí, sim, não há parâmetros. Cada um de nós pode transcender qualquer determinismo. De qualquer modo, numa escola que adota essa linha de trabalho humanista aprende-se, também, a não se surpreender com nenhuma atitude humana, pois o erro ganha uma dimensão educativa e não punitiva. Atitudes distorcidas são sempre pontos para reflexão, análise, crítica e tomada de posição. É verdade que não devemos exigir essa articulação mental de uma geração que só aprendeu a memorizar, só entende o que está parametrizado. Ela é o resultado de um ensino cujo foco não era o aluno. O construtivismo, ao contrário, propõe-se a olhar o estudante, porque mais importante do que o que se ensina é o como se aprende, quando se estabelece que o foco é a aprendizagem. É possível, sim, que existam escolas que não fazem um bom trabalho, assim como devem ter existido tantas outras que também não fizeram um bom trabalho outrora. Educar é uma tarefa árdua, metódica, sistemática, mas também amorosa, significativa, cheia de sentido.

De qualquer modo, quero, ao jeito de Eurico Alves Boaventura – poeta baiano - convidar o articulista da Veja e outros que não acreditam nesta teoria: - Venham, meus caros, conhecer o Colégio onde estudei e me descobri capaz, criativa, inteligente, competente. Venham, meus amigos, se deliciar, na Escola onde trabalho, com as travessuras de nossas crianças, que aprendem lições de respeito às diferenças, às diversidades, aprendem a se expressar, a articular o uso da língua, a criar estratégias para superar situações, a refletir sobre acontecimentos como o tsunami, o terremoto no Chile, contextualizando-os com as teorias e conceitos das ciências. Venham, meus caros, pois sempre é tempo de aprender a aprender, de ser criativo, inventivo e feliz.

Ah! E aos pais, diretores, alunos, educadores que tiveram paciência para terminar de ler o artigo da Veja e que acreditam que podemos educar segundo os princípios de Piaget, Vygotsky, Emilia Ferreiro e tantos outros que disseminaram e disseminam ações pedagógicas fundamentadas numa prática diária de construção e interação do conhecimento, não se preocupem se alguns acreditam que estamos atolados num pântano. Nossas crianças estarão a postos para criar estratégias para nos tirar de lá!

domingo, 30 de maio de 2010

Revista Veja: Como não fazer jornalismo e como ser enganada sobre o que é Construtivismo! - Parte 2






Somos sabiás ou papagaios?



Pois é. A reportagem da Veja "dá pano pra manga". Vamos lá.

Embora ache difícil argumentar esta segunda parte, já que a Veja procurou o doutor em Educação João Batista Oliveira*, creio que embora ele tenha falado algumas verdades, a maneira como elas foram colocadas manipulam novamente a informação. Vejamos:

A experiência mostra que as interpretações livres do construtivismo podem ser desastrosas – especialmente quando a escola adota suas versões mais radicais. Nelas, as metas de aprendizado são simplesmente abolidas. O doutor em educação João Batista Oliveira explica: "O construtivismo pode se tornar sinônimo de ausência de parâmetros para a educação, deixando o professor sem norte e o aluno à mercê de suas próprias conjecturas".

Como bem o professor disse, o Construtivismo "pode" de tornar sinônimo de ausência de parâmetros da educação. Sim, pode ser verdade, mas isto só acontece quando o professor não entende a proposta construtivista de que ele é o mediador, portanto, tem sim de ter parâmetros para auxiliar o aluno em seu desenvolvimento.

E outra: o que são estes parâmetros? Conteúdo?

Aí o doutor continua:

"Por preguiça ou desconhecimento, essas abordagens radicais da teoria de Piaget são a negação de tudo o que trouxe a humanidade ao atual estágio de desenvolvimento tecnológico, científico e médico. Sua ampla aceitação no passado teria impedido a maioria das descobertas científicas, como a assepsia, a anestesia, as grandes cirurgias ou o voo do mais pesado que o ar. Sir Isaac Newton (1643-1727), que escreveu as equações das leis naturais, dizia que suas conquistas só haviam sido possíveis porque ele enxergava o mundo "do ombro dos gigantes" que o precederam".

Quem lê isto pensa que o Construtivismo não acredita que devamos olhar para o conhecimento já produzido pela humanidade. Embora não seja especialista, será que uma teoria que acredita que o ser humano constrói seu conhecimento iria mesmo deixar de lado o que outros já construíram?

Caramba. Começar de um ponto e continuar a desenvolvê-lo não é construir um conhecimento, como fizeram estes ilustres do passado, e como ainda fazemos?

E conclui:

"O conhecimento que nos trouxe até aqui é cumulativo, meritocrático, metódico, organizado em currículos que fornecem um mapa e um plano de voo para o jovem aprendiz. Jogar a responsabilidade de como aprender sobre os ombros do aprendiz não é estúpido. É cruel."

Pois é. Mas este mesmo conhecimento também manteve a desigualdade, a injustiça, a competição cruel e discriminatória, justamente porque quem tem mais chance de "acumulá-lo", tem espaço. É o que vemos até hoje. Os pobres não têm acesso á universide pública justamente porque não acumularam estes conhecimentos ao longo da vida. E olha que não podemos garantir estes conhecimentos nem em que teve chance, senão, por que estes cursinhos pré-vestibulares caríssimos? Muitos decoram muitas coisas (por meio de musiquinhas e fórmulas piadistas), passam no vestibular e esquecem de muita coisa que viram. Pergunto: construíram conhecimento? Não. Transformaram-se em uirapurus, sabiás ou papagaios?

Pois é...chegamos ao final de mais um capítulo desta incrível história feita pela Veja. Aguardem as próximas discussões.

sábado, 29 de maio de 2010

Revista Veja: Como não fazer jornalismo e como ser enganada sobre o que é Construtivismo! - Parte 1


Como jornalista, sempre desconfiei da Revista Veja. Sempre achei que ela manipula informações. Como professora, sempre achei o Construtivismo uma das melhores concepções de aprendizagem. E para minha alegria, pude comprovar estas duas idéias. Vejamos o porquê.

Na semana de 12 de maio, a Veja publicou uma reportagem que dá vergonha só de ler o título, mas como se não bastasse, ao decorrer do texto, você não sabe se ri ou chora. Um texto mal feito e muito (mal) manipulado (se é que existe boa manipulação...). Ele é comprido, mas podemos aprender muito como não fazer jornalismo e de quebra, discutir sobre a única coisa correta dele: as pessoas não sabem o que siginifica o Construtivismo.

Quando terminei de ler, estava de boca aberta (e não é força de expressão). O texto deixou-me perplexa por sua falta de seriedade. É tanta besteira que vamos ter que ir por partes...

Ninguém é obrigado a acreditar no Construtivismo como verdade suprema, por isto, primeiro vamos discutir sobre a manipulação da informação, o que já dá pra perceber no subtítulo da matéria.

"Seis de cada dez crianças brasileiras estudam segundo
os dogmas do construtivismo, um sistema adotado por países
com os piores indicadores de ensino do mundo"


Numa época em que não temos tempo para nada, o título e subtítulo acabam sendo as coisas mais importantes num texto jornalístico. Logo, devemos sintetizar o que de mais importante há na matéria. Neste caso, o jornalista enfatizou um dado. Mas será que realmente 60% da população brasileira é educada pelo construtivismo?

Ao começar o texto, percebemos que não é bem isto que acontece, como podemos ver no primeiro parágrafo:

"Mais de 60% das escolas públicas e particulares no Brasil se identificam como adeptas do construtivismo". Ora, não é porque as escolas acham que são construtivistas, que são realmente. Isto é óbvio! Tive uma discussão destas na sala outro dia. Um colega de classe defendeu o método tradicional de alfabeticação dizendo que na sua época, aprendeu a ler, e hoje, como as escolas são construtivistas, ninguém aprende nada. E o pior: a professora concordou.

Então perguntei: mas há provas de que as escolas são construtivistas e que por isto, as crianças saem das escolas analfabetas-funcionais? A resposta: não. Este tipo de senso comum que Veja usou. E outra: "dogmas". Gostaria muito de saber quais dogmar são estes? Cadê estes dogmas na teoria de Piaget. Ainda que eles existissem, seria justo colocá-los na matéria, né?

Aí, ele continua a nos confundir, e passa a falar que as escolas não trabalham o construtivismo, mas o que acreditam ser. Veja:

"O construtivismo tornou-se uma interpretação livre de um conceito originalmente racional e coerente. Ele adquiriu várias facetas no Brasil".

Ele poderia ter se redimido aí, mas não é seu objetivo, e solta novas pérolas. Ao continuar, a reportagem usa de uma linguagem estranha para simplesmente falar que ninguém sabe ao certo sobre o tema: "Em plena era da internet, os conceitos do construtivismo parecem ter chegado ao Brasil via as ondas curtas de 49 metros de propagação troposférica, com suas falhas e chiados. Ninguém sabe ao certo como o construtivismo funciona, muito menos saberia listar as razões pelas quais ele foi adotado ou deve ser defendido". Uma das regras do jornalismo é ser direto, coisa que o jornalista não fez.

Mas não para por aí: para explicar um pouco sobre a teoria, o jornalista metido à engraçadinho fala:

"Traduzindo e caricaturando: como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade. Isso está mais longe de Piaget do que Madonna da castidade."

Ou seja: o cara fala lá em cima que os brasileiros não sabem o que é, fazem um balaio de gato, mas o que a matéria deixa a entender é que o Construtivismo (verdadeiro) é o culpado? Assim não dá!!!

Num país com milhares de escolas, será que nenhuma é exemplo nesta questão? Será que a Veja não teve tempo de conversar com a professora e doutora em Psicologia da USP, Telma Weisz, que muito tem a nos explicar sobre o Construtivismo?

Preguiça? Ignorância? Manipulação? Só por aqui, se pararmos para pensar, já dá pra levantar uma boa discussão. Então, que as outras besteiras fiquem para a próxima.